• Gabriel Machado

Prece e Vontade Divina


O dia começa. Desde que abrimos os olhos de manhã até a hora que vamos dormir (e além, ainda), somos levados a tomar decisões. Decisões estas que nos levam a caminhos, e momentos diferentes dentro de nossas vidas. Na correria do dia-a-dia, se faz necessária inclusive, a projeção e organização dos nossos atos, para que não nos percamos no meio de tantas obrigações. Mas, no final, a escolha de quais objetivos atender primeiro é sempre nossa.


A todo momento, exercemos a nossa vontade individual sobre o coletivo, moldando o nosso mundo pessoal, e transformando constantemente a obra do criador. Deus, certamente, nos fez co-criadores do seu universo, e a nossa criação nada mais é do que a atuação da nossa consciência sobre o mundo externo, sendo essa consciência uma parte da inteligência divina a qual foi dado o livre-arbítrio. Emmanuel nos orienta nesse sentido quando, na pergunta 302 do livro “O Consolador” nos diz:

“Em todo homem repousa a partícula da divindade do Criador, com a qual pode a criatura terrestre participar dos poderes sagrados da Criação.”

No entanto, nem sempre a nossa vontade se concretiza na forma de ação, tendo isso, diferentes causas. Uma delas (e a mais louvável em alguns casos) é o desprendimento daquilo que move a ação, quando o ser compreende os efeitos que se pretende, e pondera que tal ato poderia ser danoso. Outra causa, muito comum, é a falta de meios para o indivíduo realizar a sua vontade, quando esta escapa às soluções para sua realização, ou ainda, quando se choca na vontade do coletivo. E eis aqui, onde delimitamos o nosso pequeno estudo.


Imaginemos de forma hipotética, a existência de um concurso, o qual todos os inscritos querem passar. Se refletirmos um pouco, podemos entender que cada indivíduo que presta o concurso, não configura o único que mantém a vontade de ser aprovado. Contudo, tais vontades se chocam, quando impomos como princípio que o número de vagas não é igual ao número de concorrentes. A vontade de uns será atendida, enquanto a vontade de outros, certamente não.


E é aqui que vemos que sempre há, bem delineado, algo externo a nós mesmos que não atende aos nossos próprios objetivos. Sempre haverá situações e contextos aos quais os nossos desejos não serão atendidos. E isso é de extrema importância, uma vez que é causa e efeito ao mesmo tempo. Quando verificamos as nossas relações no dia-a-dia, vemos que o fato de não sermos correspondidos em nossas aspirações o tempo inteiro faz de nós pessoas mais humildes, e essa humildade nos dá força para que compreendamos os caminhos diferentes da nossa própria vida.


Uma vez que a nossa sociedade seja composta de tantas pessoas dividindo o mesmo planeta, vemos isso com mais clareza ainda. E aqui, finalmente, podemos ver que no meio de um suposto caos, ainda temos uma sociedade a se ordenar pouco a pouco. Nisso, podemos supor a existência de uma força externa que mantém coesas as mentes e as aspirações.


Na história da humanidade, vemos, apesar de sofrimentos e tragédias, uma ascensão constante dos conhecimentos e da moral humana. E esse crescimento só é possível através da ação externa mencionada, em conjunto com as nossas próprias atitudes. E essa força constitui-se como a Vontade Divina.


Muitas religiões e crenças consideram a Vontade Divina algo superior às Vontades Individuais, ofuscando gostos pessoais e atitudes consideradas humanas. Mas até onde vai a nossa ação frente à vontade de Deus? Quanto devemos considerar do que supomos ser o desejo do Pai?


Para analisarmos esses questionamentos, devemos primeiro partir do princípio da ignorância na qual fomos criados, e na qual nos mantemos ainda, em maior ou menor grau. Quando levamos em conta esse pequeno fator, compreendemos que, na nossa falta de conhecimentos, é injusto tentarmos compreender por completo todas as aspirações divinas. Diversas vezes, fazemos isso, incorporando na nossa imagem de Deus, as nossas imperfeições terrenas, e até mesmo repassando essa imagem errônea aos nossos semelhantes.


O necessário aqui, acima de tudo, é a compreensão das nossas limitações como seres humanos encarnados e a boa vontade em aprender. Isso nos torna humildes perante Deus e perante os nossos iguais, e então, nos torna capazes de delinear, mas não compreender por completo, a figura de Deus. E, no nosso estágio evolutivo, compreender os limites da essência divina sem vê-la de fato é muito mais do que o necessário para seguir evoluindo. Ainda que não haja compreensão por completo, é possível ter uma noção clara da vontade divina, uma vez que Jesus a trouxe até nós através dos seus ensinamentos. Por isso, o estudo e o entendimento das lições do Cristo são de suma importância para o nosso progresso moral e espiritual.


Olhando agora, por outro ângulo, vemos aqueles dentre nós que se utilizam do que suspeitam ser a vontade dos céus para aprisionar mentes e reger corações sobre a sua própria vontade. Como dito, em certas crenças, esse conceito limita mais do que liberta, atrasando as nossas aspirações individuais. É certo que o nosso coração deve estar aberto à ordem que começa na visão divina da criação; contudo, a boa-vontade da criatura caracteriza o desejo de melhoria. Por isso mesmo, é necessária a consciência das próprias atitudes, de maneira a analisar e aperfeiçoar constantemente o nosso ser. Fazer algo bom sem esforço para tal, não constitui mérito, ainda que ajude no contexto em que nos inserimos.


Segundo Emmanuel, no livro “Pensamento e Vida”: “a vontade é a gerência esclarecida e vigilante, governando todos os setores da ação mental.” Portanto, a vontade individual constitui-se ativa por atuar diretamente no campo das escolhas humanas. Por esse mesmo motivo, é necessária vigilância para usar a vontade de maneira a não satisfazer o ego, mas a coletividade, uma vez que pensar na coletividade, é compreender a harmonia do mecanismo social, e por fim compreender um pouco da vontade de Deus.


Tomando tudo dito até aqui, podemos nos questionar: se a pretensão é seguir a vontade divina, mantendo a consciência individual, qual é o papel da prece?

Ao analisarmos a prece, vemos que, na maioria das crenças ela se constitui essencialmente de três momentos: o agradecimento, o pedido e o louvor. Dos três, o que teoricamente mais se distancia da aceitação dos desejos de Deus é o pedido. Em tese, o pedido significa a demonstração do nosso desejo, para que este passe a fazer parte do desejo divino.


Muito há a ser discutido sobre isso, uma vez que o pedido poderia ser uma manifestação de insatisfação com determinada situação daquele que pede. No entanto, ainda que se pense assim, o pedido é necessário, porque mostra força e a boa-vontade nossa, naquilo que pedimos. Mostra, antes de tudo, consciência do nosso estado diante da criação, e do nosso desejo de melhoria, e por isso se torna essencial.


Contudo, a prece que pede, também deve ser a prece que agradece e louva, não em momentos distintos, mas ao mesmo tempo. Reconhecer a nossa pequenez diante do mundo e da criação passa por esse processo, onde compreendemos que, ainda que não saibamos o propósito divino, vislumbramos que Ele rege por nós e nos inspira constantemente nas nossas atitudes.


Nesse processo de humilde aceitação, a mente humana se prepara e consegue compreender cada vez mais a figura de Deus, porque é somente na ausência do orgulho que nos abrimos para a visão do Pai, e somente na ausência do egoísmo que enxergamos a semelhança nossa com o restante da criação.


Quando compreendemos que somos irmãos do mesmo Pai, compreendemos também que nossos desejos não estão acima dos desejos de nenhum dos nossos semelhantes, e o único anseio que nos orienta no meio de tudo é o de Deus. Não à toa nos disse Jesus:

“Que seja feita a Sua vontade.”.


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